Groenlândia é Terra Indígena

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Kitinho
Apr 14, 2026


Trump ameaça décadas de conquistas em autodeterminação territorial de 2,1 milhões de km² de autogoverno indígena — e poucas pessoas estão falando disso por ser no Ártico.

Logo após a operação militar dos EUA na Venezuela que resultou no sequestro do autocrata Nicolás Maduro (3 de janeiro de 2026), o presidente Donald Trump intensificou publicamente suas declarações sobre o desejo de colocar Kalaallit Nunaat — nome indígena da Groenlândia — sob controle estadunidense.

Linha do Tempo

1867 – O Congresso dos EUA decide não adquirir a Groenlândia após a compra do Alasca.

1940 – Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA ocupam a Groenlândia, deslocando uma aldeia inuit e estabelecendo a Base Espacial Pituffik (Base Aérea Thule), além de 20 bases militares agora abandonadas.

2019 – Trump sinaliza interesse em adquirir a ilha.

2025 – O Serviço de Inteligência Dinamarquês descobre uma rede de pelo menos três pessoas trabalhando em "operações de influência" na Groenlândia para criar uma campanha de disputa entre a Dinamarca e o território autônomo.

2026

4 jan. – Trump volta a afirmar interesse no território.

6 jan. – Trump avalia usar as Forças Armadas para anexar a Groenlândia.

7 jan. – EUA consideraram pagar até US$ 100 mil por groenlandês.

12 jan. – Trump afirma que os EUA terão controle da Groenlândia "de um jeito ou de outro".

17 jan. – Tarifa de 10% foi imposta a países da OTAN, visando a aquisição da Groenlândia.

18 jan. – Manifestações contra os EUA nas ruas de Groenlândia e Dinamarca.

21 jan. – EUA avisam que não aplicarão novas tarifas à Europa.

21 jan. – O governo da Groenlândia publica um guia de preparação para crises, recomendando que famílias tenham provisões para 5 dias.

Os líderes europeus emitiram declaração conjunta categórica: "a Groenlândia pertence ao seu povo" — e apenas Dinamarca e Groenlândia podem decidir sobre seu futuro.

Mas quem realmente é o povo da Groenlândia?

O território autônomo é majoritariamente povoado pelos inuit, auto-reconhecidos como Kalaallit, que representam 90% da população. Os Kalaallit se dividem em três grupos:

• Kalaallit da Groenlândia Ocidental (fala Kalaallisut);

• Livit de Kangia (fala Livi Oraasia);

• Inughuit/Avanersuarmiut (fala Inuktun).

Um modelo de autogovernança indígena

Em 2008, mais de três quartos da população votaram pela ampliação da autogovernança, aumentando o controle sobre a polícia, tribunais e política externa, além de garantir o reconhecimento à autodeterminação e ao uso do Kalaallisut como língua oficial, com o dinamarquês como segunda língua.

O cotidiano econômico do território tem como base a caça de subsistência, pesca comercial, turismo e novos esforços na indústria mineradora. A autogovernança é exercida pelo Parlamento (Inatsisartut) e pelo Governo (Naalakkersuisut). Em Kalaallit Nunaat, não existem terras privadas; a terra é coletivamente possuída, refletindo a tradição nômade dos Kalaallit.

Em relação à pretensão de Trump, a posição da população é cristalina: 85% dos groenlandeses rejeitam qualquer tomada de controle pelos Estados Unidos.

"85% dos groenlandeses rejeitam qualquer tomada de controle pelos Estados Unidos."

Quais são os porquês? Segurança? Lucro? Marketing eleitoral?

Kalaallit Nunaat abriga três dos maiores depósitos de elementos de terras raras (ETRs), essenciais para dispositivos eletrônicos. Esses recursos estão sob o gelo, e sua extração enfrenta desafios logísticos significativos, segundo especialistas. A ideia de que essa abundância resultará em lucro é, além de colonial, uma fantasia.

Atualmente, há dois sítios de mineração ativos, incluindo o operado pela Greenland Anorthosite Mining (GAM), extratora de anortosita rica em alumínio (em Majoqqap Qaava no sul da ilha), que opera sob licença de exploração e Acordo de Benefícios de Impacto.

À medida que a crise climática acelera o desgelo da criosfera, Kalaallit Nunaat torna-se cada vez mais visada por governos e empresas em busca de ETRs.

A ameaça também alcança a ciência climática

A região é indispensável para pesquisas sobre gelo derretendo, adaptação de ursos polares, fiordes remotos e mudanças climáticas, em geral. Ao contrário da Antártida — governada há décadas por um tratado internacional que garante paz e ciência —, no Ártico não há essa proteção.

A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 do governo Trump identifica três ameaças no Hemisfério Ocidental: migração, drogas e crime, além da influência da China. Kalaallit Nunaat não se enquadra em nenhuma dessas categorias.

Trump justifica seu interesse na região como questão de segurança, alegando que navios russos e chineses a tornariam estratégica. Esse argumento é frágil, pois Kalaallit Nunaat é membro da OTAN, que prevê defesa coletiva. Um acordo de 1951 já permite instalações militares na região.

Apesar disso, Trump deseja o território para o projeto "Domo de Ouro para a América", um escudo contra possíveis mísseis de Rússia, China, Coreia do Norte ou Irã. As aspirações de Trump mostram-se superficiais e irrealistas.

Trump deixou nítido que não respeita o direito internacional nem a soberania das nações. Talvez não esteja interessado em possuir Kalaallit Nunaat, mas em usar essa ameaça para arrancar acordos econômicos em detrimento da China — ou mesmo oferecer o território às big techs para a construção de data centers.

Esta diplomacia coercitiva ameaça diretamente o autogoverno de Kalaallit Nunaat e os povos indígenas e comunidades locais do mundo inteiro.

"Ele não vai nos comprar"

Qupanuk Olsen (@qsgreenland) é a maior influenciadora de Kalaallit Nunaat, com 800 mil seguidores. Através de seus vídeos, ela compartilha o povo, a cultura e o cotidiano que vão além do gelo. Olsen critica a visita de Donald Trump Jr. e a distribuição de bonés MAGA para moradores de rua em troca de refeições, criando uma falsa imagem de apoio local.

Ela destaca a colonização como raiz da alta taxa de suicídio e outros problemas estruturais.

"Devemos descobrir como negociar com Trump e transformar isso em algo útil para o nosso futuro." — Qupanuk Olsen

Olsen acredita que a cobertura midiática está acelerando a busca pela independência. Todos os partidos políticos na Groenlândia são favoráveis à independência da Dinamarca. O que varia é apenas o cronograma — alguns querem acelerar radicalmente o processo, outros preferem uma transição gradual.

Silêncio editorial

Nos cabe questionar por que a invisibilidade geográfica justifica a indiferença política e por que, em uma cobertura massiva sobre a Groenlândia, tão pouco se falou da indigenidade do território.

Conheça mais através de quem vive o território

Jens-Frederik Nielsen — Chefe do governo regional, representando o partido Demokraatit. Defende a redução da dependência do subsídio dinamarquês, priorizando o desenvolvimento empresarial e a autossuficiência econômica.

Múte Bourup Egede — Atual ministro de Naalakkersuisoq para Finanças e Impostos. Ex-chefe do governo regional (2021–2025) e líder do Inuit Ataqatigiit. Desde 2018, declara que a soberania e a integridade territorial não estão em negociação: "Essas são nossas linhas vermelhas".

Conselho Circumpolar Inuit (CCI) — Organização internacional fundada em 1977 que visa promover os interesses dos povos indígenas Inuit por meio de uma plataforma para voz unificada em questões climáticas e geopolíticas.

Niviaq Korneliussen — Destacada representante da nova literatura groenlandesa, abordando temas como a epidemia de suicídio e o ativismo literário.

Josepha Kûitse — Ativista e influenciadora reconhecida por sua voz nas discussões sobre Kalaallit Nunaat, abordando temas sociais, culturais e ambientais que representam as perspectivas dos povos indígenas do Ártico.

Conselho da Gronelândia para os Direitos Humanos (IPS) — Criado em 2013 com base nos Princípios de Paris da ONU, atua para promover e proteger os direitos humanos na Gronelândia.

Inuk Silis Høegh — Artista plástico e cineasta. Seu documentário "Sumé: Sound of a Revolution" foi a primeira seleção groenlandesa exibida no Festival Berlinale.

Com informações de Paulo Ghiraldelli, Suzanne Cords, o IWGIA (International Work Group for Indigenous Affairs), Steven Lamy, Will de Freitas e Dmytro Hubenko com AFP. Também são citados Anita Hofschneider da Grist, NSIDC, Stephanie Cram da CBC News, além do Inteligência Dinamarquês (DIS) e o Naalakkersuisut.